25 de junho de 2026

Cuba, o Castigo Coletivo e a Opção Mariel, por Ernesto Friedrich de Lima Amaral

Os Estados Unidos não podem simultaneamente exigir que os cubanos sejam livres para partir e se recusar a recebê-los quando o fazem.
Opção Mariel - fim do êxodo - 26 de setembro de 1980 - Reprodução

Os EUA mantêm embargo a Cuba, afetando a população civil e não o governo, como forma de pressão política.
O processo contra Raúl Castro espelha táticas usadas contra Maduro, indicando intenções políticas dos EUA.
A abertura da emigração em 1980 (Mariel) gerou crise nos EUA; Cuba hoje pode usar isso para pressionar Washington.

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Cuba, o Castigo Coletivo e a Opção Mariel

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por Ernesto Friedrich de Lima Amaral

O governo dos Estados Unidos há muito tempo enquadra sua política em relação a Cuba como uma postura de princípios contra o autoritarismo. A realidade, visível para qualquer pessoa que preste atenção honesta, é algo muito menos nobre: uma campanha de guerra econômica que dura décadas e cujas principais vítimas não são os governantes em Havana, mas os aproximadamente onze milhões de cubanos comuns que simplesmente querem comer, manter as luzes acesas e viver suas vidas.

O embargo e o bloqueio de petróleo impostos por Washington não prejudicam o governo cubano. Prejudicam o povo cubano. Isso não é um efeito colateral. É o mecanismo. Privar uma população de combustível, medicamentos e oportunidades econômicas e fabricar uma crise destinada a desestabilizar um governo por dentro. A lógica moral é a punição coletiva de uma população civil para atingir um objetivo político. Chamemos pelo nome.

O recente processo federal contra Raúl Castro deve ser lido sob essa mesma luz. Os Estados Unidos construíram um caso legal contra Nicolás Maduro na Venezuela, com acusações de narcoterrorismo, indiciamentos selados e recompensas pela sua captura. Essa arquitetura não era, em última análise, sobre justiça. Era sobre construir o pretexto para algo mais drástico. O manual de Cuba agora parece seguir o mesmo roteiro. Um processo judicial não é apenas um instrumento legal. Nas mãos de uma política externa agressiva, é uma declaração de intenções futuras.

A história também exige uma contabilização mais honesta do incidente de 1996, no qual Cuba abateu duas aeronaves operadas pelos Irmãos ao Resgate, uma organização cubano-americana sediada na Flórida. A mídia americana apresentou isso de forma avassaladora como um ato de agressão internacional sem provocação. O que recebeu muito menos cobertura foi o outro lado. O governo cubano havia contatado repetidamente as autoridades americanas ao longo do início dos anos 1990, alertando que esses voos estavam violando o espaço aéreo cubano. Segundo o direito internacional, Havana tinha todo o direito de tratar essas incursões como uma ameaça à sua segurança. Washington foi avisado, repetidamente. Washington não fez nada. Independentemente do que se pense sobre a resposta final de Cuba, o incidente não ocorreu no vácuo. Ocorreu após anos de avisos documentados que o governo americano optou por ignorar. Um retrato completo desse confronto exige ouvir os dois lados da história.

Então, onde isso deixa Cuba hoje?

A resposta pode estar em uma página da história, especificamente nos acontecimentos de abril a outubro de 1980, quando Fidel Castro suspendeu brevemente a proibição cubana de emigração e permitiu que qualquer pessoa que quisesse sair partisse pela Bahia de Mariel. Ao longo de alguns meses, aproximadamente 125.000 pessoas chegaram a Miami. A escala foi impressionante: a força de trabalho daquela cidade se expandiu em torno de oito por cento quase da noite para o dia. Para contextualizar, naquela época, a imigração normal aumentava a força de trabalho nacional dos EUA em cerca de 0,3 por cento ao ano.

Os economistas têm debatido os efeitos do êxodo de Mariel no mercado de trabalho desde então. George Borjas argumentou que o fluxo repentino reduziu os salários dos trabalhadores de baixa qualificação em Miami, enquanto David Card e outros não encontraram efeitos negativos significativos nos salários ou no emprego local. O debate acadêmico permanece genuinamente sem resolução. O que não está em disputa é o efeito político: o êxodo criou uma crise imediata para Washington. O governo americano foi confrontado com a realidade humana da emigração cubana em massa. Não se tratava de uma cômoda abstração. Ele agiu rapidamente para contê-la. A retórica sobre o direito dos cubanos à liberdade e a fugir de seu governo colidiu frontalmente com a realidade desses cubanos chegando de fato.

Fidel Castro entendia exatamente o que estava fazendo. E o governo cubano de hoje deveria fazer o mesmo.

A população de Cuba gira em torno de onze milhões de pessoas. Se uma parcela significativa desses cidadãos tivesse permissão para emigrar livremente para a Flórida, as consequências políticas e econômicas para os Estados Unidos seriam imediatas e profundas. Isso é especialmente verdadeiro sob um governo Trump que fez do restricionismo o eixo central de sua agenda doméstica. Esta administração construiu sua identidade política em torno de parar a imigração. Enviou o exército para a fronteira sul, invocou poderes de emergência e transformou o espectro da migração em massa na ameaça definidora do momento. Se Cuba abrisse suas portas e convidasse seu povo a testar diretamente essa retórica, o resultado seria uma posição profundamente desconfortável para Washington.

Os Estados Unidos não podem simultaneamente exigir que os cubanos sejam livres para partir e se recusar a recebê-los quando o fazem. A opção do êxodo expõe essa contradição da maneira mais direta possível. Converte a própria linguagem de Washington contra sua política. Força uma escolha.

O propósito aqui não é esvaziar Cuba nem sinalizar derrota. O propósito é criar poder de pressão, do tipo que produz uma negociação genuína em vez de um cerco em câmera lenta. Um bloqueio de petróleo que pune coletivamente onze milhões de pessoas não é política externa. É pressão sem uma oferta séria. Cuba deveria responder não com sofrimento silencioso, mas com um movimento que mude os termos do engajamento, que force Washington a decidir o que realmente quer: uma Cuba que se reforma, ou uma Flórida que absorve.

A punição coletiva só funciona se os punidos permanecerem em silêncio e contidos.

Liberdade! Deixem eles entrarem!

Ernesto Friedrich de Lima Amaral ([email protected]) – Ph.D. em Sociologia pela Universidade do Texas-Austin

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